Eu consigo imaginar seu cabelo passando pra lá e pra cá no meu quarto. Aquele clarão laranja avermelhado indo e vindo junto com a dança perfeita que seu corpo faz andando. Seu riso ecoando pelo quarto abafando momentâneamente a música que vem da sala. Seu peso sobre meu corpo, seu calor, seus olhos brilhando ao olhar pros meus brilhando ao olhar pros seus. Dá pra imaginar você sentada no sofá passando os canais da tevê procurando um bom filme ou algum daqueles programas de decoração ou algum daqueles programas que te ensinam a fazer algo. Você está sempre aprendendo coisas novas. Sempre me ensinando coisas novas. Eu estou sempre lendo. A minha cara enfiada nos livros buscando informações novas. Algumas te interessam outras você não faz ideia do que se trata mas me escuta só pelo prazer de me ouvir falando. Você diz gostar da forma como eu conto as coisas e fico esperando um comentário depois, mesmo que seja só um 'ah sim'. Às vezes acho que você detesta essa minha necessidade de um feedback. Eu detesto. Detesto precisar de uma resposta qualquer, nem que seja um sorriso pra pelo menos ter certeza que você ouviu o que eu disse.
Tem um jornal na mesa. Eu não lembro de ter comprado jornal, você diz que um amigo teve em casa enquanto eu não estava e que ele deve ter esquecido o jornal lá. Você fica olhando pra minha cara encarando o jornal e pensa que eu fiquei com ciúme, volta a frisar 'um amigo' . Eu olho para você e sorrio e digo 'relaxa, eu confio em você. Tem café?' e você diz que não mas que pode fazer e eu agradeço com um aceno de cabeça e um sorriso e pego o jornal por curiosidade e sento no sofá da sala e leio o jornal meio que desatencioso esperando a hora que você vai perguntar como foi meu dia. Você traz o café e a impaciência me mata e eu faço um comentário sobre algo que aconteceu no trabalho. Você faz um comentário rápido meio que cortando o assunto e fala sobre o ataque que a vizinha deu no lobby hoje mais cedo. Eu digo que ela é maluca e por isso vai morrer sozinha, você não diz mais nada sobre o assunto. Eu coloco o jornal na mesa de centro e fico te olhando. Você me olhando de volta. Achei que você estivesse esperando um convite pra sair do seu canto do sofá e deitar na minha perna. Meus olhos fazem o convite, os seus aceitam mas a gente não se mexe. Eu fico te olhando, reparando na blusa que você veste. Percebo que ela não estava cortada assim ontem, comento que gostei, você sorri e diz que achou que eu não repararia. Eu digo que sempre reparo. Mentira, às vezes to tão perdido no meu mundo que se você cortar minhas blusas eu não vou reparar. Você levanta pra levar os copos pra cozinha, eu digo que não precisa, aproveito que você levantou e te puxo pra cima de mim, você solta um gritinho meio assustado e se deixa cair em cima de mim. Eu te dou um beijo no rosto, você inventa que tem que fazer algo para ver se eu te solto, eu digo rindo 'ah, tá bom que vou te soltar sim...' e te abraço mais forte e você sorri fazendo barulho e se aconchega nos meus braços. Nesse momento nem o café, nem o trabalho, nem a vizinha, nem o amigo, nem o jornal, nem o lobby, nem os meus medos do trabalho, nem a curiosidade sobre o que você fez hoje ou a vontade de falar sobre o que fiz hoje, nem o telefone tocando baixo no fundo, nem as contas pra pagar, nem a falta de dinheiro e a fome, nada importa. Nesse momento eu tenho tudo que eu preciso.
'eu te amo'
'eu também te amo'
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
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