domingo, 8 de janeiro de 2012

                                     
Andei te procurando. na verdade fiquei até agora te procurando. indiretamente. não te liguei. não fui na sua casa. não gritei seu nome na sua janela. não te mandei uma mensagem. aparentemente não fiz nada mas te procurei. abri todas as gavetas da casa. escutei todos os discos que ouviamos juntos. reli aquele livro que voce me deu de aniversario. voce não estava mais aqui. procurei na sala. no banheiro. na cozinha e no nosso quarto. você não está mais aqui mesmo. Só agora que me dei conta disso. quando será que você foi embora? faz muito tempo? não sei. não reparei. não lembro exatamente de você saindo. lembro de algo parecido... alguma coisa como você dizendo que ia em algum lugar. e você foi. não vi o tempo passar. quanto tempo será que faz isso? algumas horas. talvez alguns dias. quanto tempo será que você saiu? a saudade veio vindo. disso eu lembro. lembro da saudade vindo. devagar. devagar  e constante. eu sentia a presença do meu lado. presença do que era você. ou que achei que era você. presença constante. devagar e constante. presença e saudade. que presença? talvez voce tenha retornado. talvez tenha esquecido de levar a chave ou a carteira ou o celular. voce costuma esquecer essas coisas e volta pra pegar rápido e sai de novo. talvez tenha sido isso. talvez tenha sido a moça que faz faxina que entrou. a porta devia estar aberta. nao lembro. fez o que tinha que fazer. talvez tenha conversado comigo. pedido um aumento. eu devo ter respondido qualquer coisa. não lembro. talvez tenha mandado ela embora. talvez. parece que faz tanto tempo que nao aparece ninguém aqui. a quanto tempo será que as coisas tão assim. ando mais uma vez pela casa. abro o armário. não vejo suas roupas. não vejo nada. vou para a sala. a estante. nossas fotos. nossas fotos. eu tinha certeza que tinhamos fotos na estante. olho para os porta retratos. fotos minhas. fotos minhas em casa. fotos que eu nao lembro de ter tirado numa cas que nao parece a casa que estou. nao sei se está chovendo. provavelmente está chovendo. reparo que nao há decoração na parede branca. há poucos móveis. não há revistas novas. livros novos. jornais novos. há uma camada de poeira por cima de tudo. é. provavelmente eu demiti a empregada. quanto tempo será que faz isso... é. voce nao voltou. voce é alergica a poeira. se voltou e viu a casa assim deve ter falado comigo. eu nao devo ter me importado porque nao lembro nem de voce ter voltado nem da empregada ter ido nem de voce ter ido. voce deve ter gritado queimado as fotos feito um escandalo. deve ter dito que eu arruinei sua vida. eu devo ter arruinado mesmo. voce deve ter pego suas coisas. e as minhas também porque nada aqui parece ser meu. voce deve ter pego todas as coisas e ido embora. e eu nem percebi que as coisas nao estavam mais aqui. e eu nem percebi que voce tinha ido embora. eu to sentindo saudade de voce. eu to sentindo saudade de voce e to tentando lembrar de voce. nao consigo lembrar de voce. fico procurando qualquer coisa que me dê uma pista. olho os móveis novamente. todos eles. minuciosamente. procuro por qualquer pista. um cheiro diferente. um fio de cabelo. um vidro de esmalte de perfume de desodorante. um resto de foto. um cd. não há nada. nada que me lembre de voce. nada que me lembre do que voce foi. nada que me lembre do que eu sinto saudade. só há a saudade. só há a saudade de uma coisa que eu nem sei o que é mas que tenho certeza que não está mais aqui. desisto de procurar por voce. resolvo olhar mais para mim. procuro pela casa algo que seja meu. algo que eu goste. volto pro quarto. nao reconheço o quarto. não reconheço a cama. no armário há um espelho externo que me reflete do pescoço para baixo. não reconheço minhas roupas. nem o armário nem o espelho. abaixo para ver meu rosto. um clarão entra pela janela e reflete no espelho. não consigo ver nada. olho para trás.
não acho a janela.

Nenhum comentário:

Postar um comentário